Segundo o filósofo francês Michel Foucault, na sociedade de soberania (século XVI e XVII) a figura do soberano tem o pleno direito da vida e da morte dos seus súditos. Logo, o soberano possui o direito de “fazer morrer, deixar viver”; partindo do princípio que o poder do soberano sobre a vida só é exercido a partir do momento em que este também pode tirá-la.
A sociedade disciplinar dita por Foucault começa a vigorar a partir do século XVIII, junto com o Estado Burguês, e consiste em um sistema de controle social que utiliza diversas técnicas de vigilância e disseminam-nas pelas sociedades através de uma cadeia hierárquica - partindo de um poder central e se multiplicando em uma rede de poderes ramificada. Inicialmente, essa forma de controle foi criada pela burguesia que temia que as ideias da Revolução Francesa e do Iluminismo se disseminassem pelas massas.
O indivíduo é selecionado e dissecado individualmente, não para valorizar suas particularidades, mas com o objetivo de melhor controlá-lo, assegurando uma estrutura social homogênea. Pois, como diz Foucault “Toda forma de saber produz poder”.
O corpo social é o novo princípio e um molde é pregado a fim de manter a ordem na sociedade. Toda forma de controle é adotada por esta sociedade tendo como objetivo a produção, partindo da teoria que o indivíduo bem vigiado será produtivo. O sentido era deixá-lo dócil e apto ao sistema de produção (como pôde ser observado na propaganda política Triunfo da Vontade (1934)). A ideologia proposta neste momento é inversa: “fazer viver, deixar morrer”.
As sociedades disciplinares utilizam-se os meios de confinamento, tais como: a prisão, a fábrica, o hospital, a escola, o manicômio, a polícia (elementos essenciais do modelo Panóptico podem ser observados em: ORWELL, George. 1984 (Mil novecentos e oitenta e quatro), 1949). O principal problema era o movimento físico dos indivíduos, em suma, o deslocamento espacial.
O documentário Noite e Neblina (1955) de Alan Resnais explicita com clareza uma das fontes de confinamento e de métodos de extermínio predominantemente usados no sistema nazista: os campos de concentração. A trilha, a narração - que foi adaptada ao filme de um texto escrito por um sobrevivente de Mauthausen na Áustria - e as imagens chocantes, muitas vezes insuportáveis de se ver (crianças, homens e mulheres transportados como cargas em grandes trens, imensas filas de corpos nus, pessoas subnutridas por sopa ralas, cadáveres empilhados ao relento, salas de experiências de sadismo “médico”, montanhas de cabelos à espera da industrialização, cabeças em cestos) dialogam entre si. No Estado em Guerra (como é o caso especial do nazismo) o Estado apropria-se da estratégia ideológica “fazer viver, deixar viver” quando, na verdade, faz exatamente o contrário na prática. O Estado tem muito interesse na força de trabalho que estas vidas propiciam e por isso não querem nenhum tipo de resistência por parte delas, trabalhando tal estratégia.
A partir do século XX, mais precisamente na segunda metade, a sociedade disciplinar analisada por Foucault entra em transição e se transforma na denominada sociedade de controle. Novas formas de controle mais requintadas e corriqueiras substituem os métodos do regime disciplinar (Vide livro HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo, 1932). Antes o regime era fechado, agora é aberto (dois exemplos cotidianos: “Como estou dirigindo?” e “Sorria, você sendo filmado”). O monitoramento muitas vezes é usado como justificativa de uma suposta diminuição na criminalidade, sobretudo, vários estudos apontam não existir relação direta entre esses dispositivos e uma sociedade com menos violência.
Em casa, no trabalho, no restaurante, na rua – a sociedade de controle está em todo lugar, é uma vigilância constante (assim mostra o livro MANSANO, Sonia Regina. Sorria - você está sendo controlado, 2009) . Até o cinema já tem utilizado esse tema, um exemplo disso é o filme Red Road (2006) onde vigilância significa proteção e invasão junto com o elemento humano que determina o seu peso moral. Ou ainda Matrix (1999), filme bastante conhecido.
Os processos de comunicação fundamentam muito bem esse tipo de sociedade. A empresa substitui a fábrica e o indivíduo passa a ser dividual, pois está separado de si mesmo e é lançado na massa, apreendida como estatística financeira. O controle virtual do capital é a senha.
As sociedades de controle lançam uma formação permanente das ações, do pensamento e até da linguagem, para isso utilizam diferentes instrumentos tecnológicos como: câmeras, campanhas de saúde ou comerciais sedutores que atraem os consumidores para distintas mercadorias ou serviços (é o controle através da midiatização). De fato, a globalização só vem reafirmar essa questão: a dominação cultural, econômica e ideológica.