domingo, 26 de setembro de 2010

O óbvio é o mais fácil de ser percebido?

Estava arrumando e eliminando alguns papéis e, como de costume, encontrei diversas anotações. Muitas eu nem sei de onde nem quando surgiram. De livros que li, provavelmente. Eu tenho essa mania de copiar ou parafrasear as passagens que eu julgo serem interessantes.
Ao se aproximar o SWU - evento de música em ITU - que prega a bandeira da "sustentabilidade" (Ah, eu vou!), comecei a refletir sobre certos aspectos. Este não é o primeiro evento (e não será o último) a misturar música e consciência ambiental.
Penso se esses eventos realmente influenciam as pessoas ou se o "ecologicamente correto" é apenas mais uma ferramenta de marketing, já que está moda. Se eles realmente ajudam a conscientizar os indivíduos. Afinal, as pessoas estão lá por outro motivo, certo? Curtir os shows, se distrair e se divertir, ou seja, pelo entretenimento. Logo, o sustentável não fica em segundo plano, não é tratado apenas como mais um detalhe?
Um adolescente disse a seguinte frase em um fórum que participo em uma rede social: "Eu acho que a nossa consciência sustentável só vai até onde esbarra no nosso conforto cotidiano". Não sejamos hipócritas, ele tem razão.
Voltando às minhas anotações aleatórias, aparentemente sem nexo por estarem fora do contexto, resolvi criar um post com todas essas frases soltas e adaptar a um "contexto".

Já dizia um antigo professor que se o homem vivesse no fundo do mar, provavelmente a última coisa que ele descobriria seria a água.
Talvez não devêssemos falar da realidade, e sim de realidades. O mundo se apresenta com uma nova face cada vez que mudamos a nossa perspectiva sobre ele. Conforme a nossa intenção ele se revela de um jeito.
O homem não é um ser passivo, que apenas grava aquilo que se apresenta aos seus sentidos. Pelo contrário, o homem é construtor do mundo, o edificador da realidade. Mas o homem percebe-se como estando submetido à realidade.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sociedade disciplinar e sociedade de controle. O que são? Eis a questão...

Segundo o filósofo francês Michel Foucault, na sociedade de soberania (século XVI e XVII) a figura do soberano tem o pleno direito da vida e da morte dos seus súditos. Logo, o soberano possui o direito de “fazer morrer, deixar viver”; partindo do princípio que o poder do soberano sobre a vida só é exercido a partir do momento em que este também pode tirá-la.
A sociedade disciplinar dita por Foucault começa a vigorar a partir do século XVIII, junto com o Estado Burguês, e consiste em um sistema de controle social que utiliza diversas técnicas de vigilância e disseminam-nas pelas sociedades através de uma cadeia hierárquica - partindo de um poder central e se multiplicando em uma rede de poderes ramificada. Inicialmente, essa forma de controle foi criada pela burguesia que temia que as ideias da Revolução Francesa e do Iluminismo se disseminassem pelas massas.
O indivíduo é selecionado e dissecado individualmente, não para valorizar suas particularidades, mas com o objetivo de melhor controlá-lo, assegurando uma estrutura social homogênea. Pois, como diz Foucault “Toda forma de saber produz poder”.
O corpo social é o novo princípio e um molde é pregado a fim de manter a ordem na sociedade. Toda forma de controle é adotada por esta sociedade tendo como objetivo a produção, partindo da teoria que o indivíduo bem vigiado será produtivo. O sentido era deixá-lo dócil e apto ao sistema de produção (como pôde ser observado na propaganda política Triunfo da Vontade (1934)). A ideologia proposta neste momento é inversa: “fazer viver, deixar morrer”.
As sociedades disciplinares utilizam-se os meios de confinamento, tais como: a prisão, a fábrica, o hospital, a escola, o manicômio, a polícia (elementos essenciais do modelo Panóptico podem ser observados em: ORWELL, George. 1984 (Mil novecentos e oitenta e quatro), 1949). O principal problema era o movimento físico dos indivíduos, em suma, o deslocamento espacial.
O documentário Noite e Neblina (1955) de Alan Resnais explicita com clareza uma das fontes de confinamento e de métodos de extermínio predominantemente usados no sistema nazista: os campos de concentração. A trilha, a narração - que foi adaptada ao filme de um texto escrito por um sobrevivente de Mauthausen na Áustria - e as imagens chocantes, muitas vezes insuportáveis de se ver (crianças, homens e mulheres transportados como cargas em grandes trens, imensas filas de corpos nus, pessoas subnutridas por sopa ralas, cadáveres empilhados ao relento, salas de experiências de sadismo “médico”, montanhas de cabelos à espera da industrialização, cabeças em cestos) dialogam entre si. No Estado em Guerra (como é o caso especial do nazismo) o Estado apropria-se da estratégia ideológica “fazer viver, deixar viver” quando, na verdade, faz exatamente o contrário na prática. O Estado tem muito interesse na força de trabalho que estas vidas propiciam e por isso não querem nenhum tipo de resistência por parte delas, trabalhando tal estratégia.
A partir do século XX, mais precisamente na segunda metade, a sociedade disciplinar analisada por Foucault entra em transição e se transforma na denominada sociedade de controle. Novas formas de controle mais requintadas e corriqueiras substituem os métodos do regime disciplinar (Vide livro HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo, 1932). Antes o regime era fechado, agora é aberto (dois exemplos cotidianos: “Como estou dirigindo?” e “Sorria, você sendo filmado”). O monitoramento muitas vezes é usado como justificativa de uma suposta diminuição na criminalidade, sobretudo, vários estudos apontam não existir relação direta entre esses dispositivos e uma sociedade com menos violência.
Em casa, no trabalho, no restaurante, na rua – a sociedade de controle está em todo lugar, é uma vigilância constante (assim mostra o livro MANSANO, Sonia Regina. Sorria - você está sendo controlado, 2009) . Até o cinema já tem utilizado esse tema, um exemplo disso é o filme Red Road (2006) onde vigilância significa proteção e invasão junto com o elemento humano que determina o seu peso moral. Ou ainda Matrix (1999), filme bastante conhecido.
Os processos de comunicação fundamentam muito bem esse tipo de sociedade. A empresa substitui a fábrica e o indivíduo passa a ser dividual, pois está separado de si mesmo e é lançado na massa, apreendida como estatística financeira. O controle virtual do capital é a senha.
As sociedades de controle lançam uma formação permanente das ações, do pensamento e até da linguagem, para isso utilizam diferentes instrumentos tecnológicos como: câmeras, campanhas de saúde ou comerciais sedutores que atraem os consumidores para distintas mercadorias ou serviços (é o controle através da midiatização). De fato, a globalização só vem reafirmar essa questão: a dominação cultural, econômica e ideológica.