sexta-feira, 18 de junho de 2010

Nossa civilização atrai a morte para si: condena-se a extinção, levando consigo as demais formas de vidas

Estava lendo um livro de Antropologia denominado de "O Tabu da Morte" e acabei me inspirando para fazer uma grande salada. Achei que pudesse dar um bom post, enfim...

Na Idade Média, muitas crianças tinham falecimento prematuro. Mortes que muitas vezes podiam ser evitadas eram causadas por descuidos e alguns cogitam até a hipótese de um infanticídio, um desejo mais ou menos consciente - reprovado, é certo, pela moral religiosa e oficial. Essas mortes eram amenizadas como se os nascimentos posteriores pudessem fazer uma espécie de substituição.

Socialmente, as crianças eram menos valorizadas. Com a sociedade industrial e a baixa expectativa de vida dos adultos, a mão-de-obra infantil passa a ser utilizada em trabalhos domésticos, na confecção de vestimentas e nas usinas, na medida que eram remuneradas em plano inferior. Eles passaram a servir como modelo de operários futuros.
Ao mesmo tempo, o pensamento social agita-se em torno da saúde dos homens adultos - mais saudável, mais produtivo. Mas o aumento da expectativa de vida depende fundamentalmente do descrécimo da mortalidade. Logo, a preocupação com a vida implica, naturalmemte, em postergar a morte. Não se deve esquecer, contudo, que com o mundo capitalista vem outras doenças: stress, doenças de trato respiratório e cardíaco, doenças causadas pelo uso de drogas, etc.
O aumento da expectativa de vida gera uma multiplicação dos idosos, que é paradoxal, pois esta sociedade é visivelmente hostil aos velhos. Quanto mais eles vivem, menos são reconhecidos socialmente, tornam-se socialmente mortos. A crueldade é tamanha que nossa sociedade mata os velhos ainda vivos: internando-os em asilos ou hospitais.
Diferente, por exemplo, da sociedade africana que tem muito respeito pelos idosos, onde a velhice significa sabedoria que alguém jovem jamais poderia adquirir, já que ela surge com o decorrer dos anos.
Todavia, é necessário entender que o sentido do velho não se limita a gerar lucro ao mercado farmacêutico ou aos serviços médico-hospitalares. A presença do velho é indispensável para que se cultue a "morte natural", lógica e aceitável. Sobretudo, essa morte não é a aceitação da morte como algo natural, é transformá-la em algo esquecível. Faz-se um deslocamento da morte para a velhice. A noção de morte natural exclui a possibilidade que o homem porte-a em si, é a anulação da morte sendo parte integrante da vida.
A nossa sociedade faz o setor médico um mercado de extrema importância. Nela, o indivíduo deve submeter-se a uma "vida sã". Afinal, o sofrimento não é aceitável em uma sociedade que prega a "felicidade". Essa felicidade está associada ao consumo. Aqui, quem não acompanha a moda está out e morre socialmente. O consumo preenche uma lacuna que as outras formas de organização social foram incapazes de completar.

A morte está em toda parte na sociedade capitalista, e esta presença é a grande contradição de uma sociedade que pretende divinizar a vida.

Um comentário:

  1. Uma sociedade enganadora, não? Consegue nos convencer que se empenha na ideia do "fazer viver, deixar morrer", quando na verdade, faz o contrário, e muitos de nós nem nos damos conta disso.

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